Não duvidem

Alguém comentou, nesses tempos de pandemia, que não enxergamos as coisas e situações como elas são, mas sim, como nós somos.  Por isso, é muito comum a gente analisar as situações e tirar conclusões com base naquilo que sabemos e fazemos. Isso me lembra quando lá pelos anos 1970 participei de uma história que nunca mais esqueci.



Naquele tempo, eu frequentava uma marcenaria, ou melhor uma carpintaria, localizada no Rincão do Toniolos,  zona rural de Santa Maria-RS, minha cidade natal. Os donos eram amigos do meu pai e me franquearam o espaço para que eu pudesse produzir alguns móveis. Até acho que foi vendo esse pessoal trabalhar, pois além de uma serraria, eles fabricavam carrocerias de caminhão, reboques, e outras coisas de madeiras, que eu desenvolvi ainda mais a minha vocação marceneira.

Uma ocasião, eu fui buscar umas peças, tábuas, para fazer uma estante para organizar melhor outra das minhas paixões: os livros. Passei lá uma tarde onde cortei, plainei, bitolei um conjunto de tábuas. Faltava cortar no comprimento. Como eles não possuíam esquadrejadeira,  ou similar, eu acionei um dos donos e pedi ajuda. Claro, me disse ele, já cortamos.

Daí, ele entrou num pequeno depósito, onde eram guardadas as ferramentas e saiu com um esquadro, um lápis e... UM SERROTE. Na hora eu entrei em pânico e pensei que minha estante estava com um futuro incerto. 

- Qual o comprimento vamos cortar?

Eu me senti esperto e mandei cortar com dois centímetros a mais, já pensando em, no caminho, passar na marcenaria de um conhecido que tinha uma serra ideal para fazer o corte definitivo. Pois bem, fiquei ali assistindo ele medir, riscar e cortar as tábuas. Feito o serviço, coloquei o material na minha Brasília e tomei o rumo da outra marcenaria, como havia planejado.

Cheguei lá e expliquei pro amigo o meu dilema e pedi que ele cortasse no comprimento certo e no esquadro. (Esse marceneiro não deixava eu usar as suas máquinas, só para explicar). Começava aí a minha lição. Ele pegou as tábuas uma por uma e foi conferindo o esquadro em ambos os lados, ia separando e comentando: esta tá boa, essa também, para finalizar dizendo que TODAS estavam no esquadro!

O legal disso é que aprendi, nessa e em outras ocasiões, que o juízo que fazemos sobre as nossas habilidades, nem sempre se aplica às habilidades alheias. Se eu não manejava um serrote com maestria, não significava que outro parceiro não fosse um  mestre na ferramenta. Além da lição, eu assumi um compromisso de um dia poder fazer cortes com aquela qualidade. Cortei muita madeira, desde então, hoje posso dizer que me garanto num serrote.

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