“O cheiro de madeira cortada e serragem pelo chão
fazem parte da minha mais antiga lembrança.

  

Cleber Saydelles

Minhas mais antigas lembranças estão ligadas a uma casa de madeira construída por meu pai, com madeira adquirida de demolição no Jockey Clube de Santa Maria, RS. Nessa casa, grudada num enorme galpão onde funcionava a lenheira de minha família, convivi, até quase a vida adulta, com o cheiro de madeira, serragem, cavacos, serras e machados. Para chegar na casa, cruzava-se por dentro do galpão onde os homens preparavam e carregam as carroças de lenha que seriam entregues por meu pai na cidade. 
 
Aprendi desde cedo que o Angico era duro, que a Açoita-Cavalo era boa para os cabos dos machados e que a Canela, geralmente fedia muito. Com esse “conhecimento”, nos anos 1970 ingressei no Colégio Técnico Industrial Cilon Rosa, onde me sobrou o curso de marcenaria para fazer a parte prática. Aprendi como cortar, lixar, montar e dar acabamento em pedaços de madeira que se transformavam em peças e móveis. Nunca mais abandonei as madeiras.
 
Em 2004, uma conspiração de fatores me proporcionou criar na Zona Sul de Porto Alegre, RS, um espaço dedicado a marcenaria: o espaço Madeira Prima. A ideia inicial era criar e produzir móveis diferenciados usando basicamente a madeira prima, ou seja, a chamada madeira de demolição. Junto com a madeira, aquelas peças jogadas no lixo, nas sucatas e colocadas estrategicamente na esquinas para que algum passante carregasse... Carreguei  muitas dessas sucatas e entendi que preservando e restaurando um móvel de madeira, o futuro seria mais verde. Mais de dez anos depois, ainda acredito nisso.

“Fotografia e madeira, fotos e móveis preservados se misturaram em condições ideais de  temperatura e pressão.”
  

Paula Miguel

O que lembro é que em São Miguel do Oeste, SC, onde nasci, tinha pelo menos uma marcenaria, a do seu Marcuzo, padrinho da minha irmã. Talvez até nem soubesse muito bem para que serviam aquelas máquinas e ferramentas, mas me sentia muito bem, brincando naquele espaço.

 

Cresci e peregrinei pela imensidão desse mapa brasileiro. Morei na fronteira do RS, de onde naveguei leve (e suada) para igarapés e rios de uma Amazônia que cercava Manaus, pendurada no ponto cardeal do Norte. Na viagem por outros pontos cardeais, cruzei as Minas Gerais, por um Belo Horizonte. Depois, acompanhei sirenes de ambulâncias pelas ruas cinzas de São Paulo. Rumo ao Sul, me encontrei no encanto das margens coloridas do Guaíba. E aqui estou.

 

Nas idas e vindas desse pêndulo da minha vida, sempre busquei olhar e observar as imagens e aprender com as paisagens. Num momento, pela lente objetiva de uma máquina fotográfica, onde aprendi que a existência é sempre maior do que aquela que a gente registra nos retratos. Por isso nem me surpreendi quando alisei um tampo de madeira e percebi que o pó da lixa eram migalhas que me serviam para descobrir um novo caminho: a restauração de móveis.

 

Fotografia e madeira, fotos e móveis preservados se misturaram em condições ideais de  temperatura e pressão, a ponto de eu me ver, e viver, como fotógrafa e restauradora. Serragem na lente, luz e foco num acabamento acetinado. É vida que segue entre lixas e imagens.