Madeira, o quinto elemento


A madeira e a humanidade compartilham a história, a evolução e, desconfio, o homem não seria o mesmo se não tivesse dominado a madeira. Por domínio, entenda-se as diversas formas de uso desse elemento. Quem sabe, foi um pedaço de madeira que serviu de arma, de extensão do braço do homem primitivo, na luta pela sobrevivência, fosse para defender a própria vida, ou para suprir as necessidades de alimentação.


Quando a madeira foi combustível ela acendeu luz e calor, no interior da caverna. O escuro cedeu espaço e o fogo cozinhou o presente da fome e garantiu um futuro de abundância ao pequeno grupo, que ao dominar o fogo passou a dominar sua própria vida. Quando a madeira se fez casa, construiu o casulo de proteção e foi testemunha dos nascimentos e finitudes dos seres que avançavam na ocupação da terra. Não só da terra...


Quando a madeira se fez barco, construiu embarcações para buscar o peixe no seio da correnteza e também para singrar “os mares nunca dantes navegados”. Dessas viagens, o homem superou os horizontes, viu e conquistou novas paisagens e se instalou definitivamente na evolução, quando sentou à mesa para repartir o alimento e o vinho da vida.


Quando a madeira se fez profissão, surgiram as várias versões de Nós: carpinteiros e marceneiros vieram com seus instrumentos rudimentares e moldaram o primeiro assento, o banco inicial da evolução. Daquele dia em diante, os vários Nós foram ocupando uma gaveta, um nicho na prateleira de uma História cada vez mais forjadas por mãos habilidosas e cabeças voltadas a pensar e realizar.


Hoje, os vários Nós, afagam a madeira centenária com o mesmo respeito dos antepassados carpinteiros e marceneiros. Se manejam modernas CNCs ou ferramentas tecnológicas, sentem o mesmo cheiro de madeira cortada. Acariciam o mesmo relevo de fibras que se moldam docemente na construção de um móvel, que até pode ter nascido do seio tecnológico de um computador, mas somente ganha vida nas mãos suaves de quem constrói, de quem olha pra madeira como se olhasse o corpo de outro ser amado.


O marceneiro foi sempre a profissão do futuro, ou melhor, a profissão do presente, ou quem sabe a profissão sempre presente. Tirar do papel o projeto, entender os rabiscos incompreensíveis, traçar linhas paralelas e perpendiculares que se completam em ângulos, encaixes e molduras pode até parecer coisa de artista. Ver um móvel sendo construído, ou restaurado, pode gerar a sensação de coisas mágicas. Mas não é arte e nem magia. É trabalho.


Se fazemos do mesmo jeito há milênios ou descobrimos o nosso jeito próprio de fazer, pouco importa. Carpinteiro, marceneiro, madeira, ferramentas e máquinas são coisas que se misturam e se completam. Podemos cogitar qu a madeira é o quinto elemento. Água, terra, fogo, ar e... madeira. Experimente retirar tudo que tem madeira na sua volta. Sobra muito pouco, quase nada. As vezes até a casa some e os sonhos nem acontecem. Viram serragem.

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